quarta-feira, 1 de julho de 2015

She will survive

Ela vai sobreviver, porque dor pior do que essa, ela já teve antes. E você se lembra disso por causa daquela conversa sobre tragédias pessoais que tiveram num bar. Ela vai seguir em frente, vai conseguir dormir sozinha no frio e não reclamar mais de frio nos pés, querendo a sua companhia, porque em algum lugar do mundo que ela esteve, bem antes de você chegar, ela já achou que fosse morrer de frio. E não morreu. Ela vai equilibrar cérebro e coração no mesmo patamar, ainda que sejam nos quadros que você deixou para serem pendurados na parede dela. Ela não vai mais precisar de você pra pendurar a luz, ou abrir o vinho depois da rotina estressante. Você vai sentir falta do sorriso fácil e do coração aberto com que ela te recebia todas as horas, ou das piadas sem graça que ela contava e esperava pela risada que sabia que não vinha. No fim ela vai lembrar de quantas vezes já passou por fins, por meios e começos, e vai seguir sem vontade, sem esforço. Lamentando por um tempo ter te perdido sem perder, mas esperando que venha alguém melhor pela frente. Com tudo que ela vai encontrar no caminho pra te esquecer, eu te digo uma coisa: Ela vai sobreviver. E no final, você vai ser o rascunho de uma memória que ela cansou de escrever.

por Ana Clara Rodrigues

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Desamor

Quando é você quem ama mais
E o outro não corre atrás
A felicidade não é capaz
De compensar toda a falta de paz

Quando é você quem ama mais
E acaba pedindo desculpas
O perdão é uma via de mão dupla

Mas não é assim que se faz
Não é assim que você faz

Quando é você quem ama mais
E o silêncio só faz machucar
A distância só faz aumentar
O vazio que se cria

Quando você só se vê afastar
E não há momentos bons que ajudem a recomeçar

Quando é você quem ama mais
E o orgulho não te deixa capaz
De deixar tudo pra trás
E pedir se quiser ficar

Não só parado aí
Observando, vendo-a partir

Quando é você quem ama mais
Não há mais o que entregar
Não há mais esforço a se fazer
Quando tudo que eu queria era você

Quando sou eu quem te amo mais
Fui eu quem te amou mais

Devolva-me meu coração e minha paz
Eu não quero te amar mais

Por Beatriz Knippel

sexta-feira, 26 de junho de 2015

a que é do mar

                
     Eu ainda estava de olhos fechados quando ela desenrolou suas pernas das minhas, tentou não fazer muito barulho ao se levantar. Abri os olhos brevemente para espia-la, ela jogou os cabelos para trás e eles alcançavam as covinhas que ela tinha no fim das costas. A cortina se mexeu com o vento e quando ele a alcançou, ela se arrepiou antes de chegar ao banheiro. Eu juro, aquele momento, aquele desfile, podia ser eterno eu não ligaria de viver para sempre uma manhã com ela.

*

     Ela me ligou na noite anterior era por volta de duas da madrugada havia loucura em sua voz, ela já não entendia muito bem o porquê de certas coisas estavam acontecendo. Como já não amava só o seu marido, como já não queria ficar na mesma casa de sempre, como queria sair esquecer tudo e viajar o mundo. Ela tinha tudo para mudar, crescer, talvez se encontrar como sempre quis, mas o medo parecia estar preso a ela, amarrado em seu pé através de uma corrente e pesando uma tonelada. Quando a encontrei, ela não conseguia olhar nos meus olhos só acendeu um cigarro e me deu as direções de onde ela precisava ir. Conectou o celular dela ao carro e colocou uma daquelas músicas horríveis que ela tanto adorava.

     - Eu preciso sumir.
     - podemos fazer isso, mas preciso colocar mais gasolina.
     - você sabe que não poderia ir comigo, não é tão simples.

     Ela tinha essa mania, se refugiava em mim, mas não dava brecha para eu me entregar. Mas já era tarde demais. Eu me perdia naqueles olhos que não carregam uma promessa de futuro, mas me faziam querer tudo ao lado dela. Chegamos aonde ela queria ir era uma mureta ao lado de uma praia, já era tarde e não havia ninguém. Era perfeito.

     - o que você sente quando pensa em mim?
     - eu me sinto com mais coragem, mais vontade das minhas loucuras. Odeio essas perguntas.
     - então me dê essa chance.
     - não posso seria sacanagem com ele.
     - mas foi ele que te abandonou mais uma vez a essa hora.

     Ela segurou minha mão e olhou nos meus olhos, eles diziam “não faça isso”, mas ela se aproximava e se aproximava mais e então já não ouvia mais o que seus olhos diziam e me beijou. Era como a primeira vez de novo, frio na barriga, redenção, algo assim... Não havia ao certo como definir.
    
     - E você o que sente ao pensar em mim?

     Eu sorri, voltei para o carro sem respondê-la.
    
     - eu te odeio, vamos embora logo.

     Ela odiou a música que escolhi, mas não mudou, encostou a cabeça em meu ombro e pôs a mão em minha coxa, não disse nenhuma palavra até chegarmos a minha casa. Quando entramos ela foi direto para meu quarto e na pressa de uma possível loucura me arrastou pelo braço e dali não pude sair.
    
*

     Ela saiu do banho, estava secando cabelo e olhava pra mim. Pendurou a toalha na janela. Ficou parada no pé da cama e me olhou durante alguns segundos, acendeu um cigarro, segurou meu pé e segui em direção a porta.

     - eu sinto que tudo sempre pode melhorar.
     - você está acordado? E do que você está falando?
     - o que eu sinto quando penso em você... eu penso que tudo pode melhorar, sempre. Não podia deixar você ir embora sem te falar isso.
     - eu não vou embora, vou só fazer um café.

     Ela saiu sorrindo e sumiu pela porta e eu estava rendido jogado na cama, refém do meu próprio porto seguro, afogado nela que veio do mar e feliz em não saber o meu destino.



     

quarta-feira, 17 de junho de 2015

retrovisor

Você diz não acreditar quando digo o que sinto,
Mas eu sei que assim é mais fácil para você,
Mas ainda sim vou conseguir ver que as coisas podem melhorar
É isso que você esconde em seu olhar.
Me dê mais uma noite e mostro uma forma diferente
Onde podemos ser felizes e ninguém saberá da gente.
Você percebe que não preciso dizer mais nada
Entrego em minha pele pra onde você me arrasta.
Sei que um dia estaremos livres
e então seu sorriso fará parte do meu.
Estive pensando em você de novo
E o quanto você constrói o que idealizo como ideal
Cada erro, cada acerto, cada pedra e local.
Pegue o mesmo carro de ontem
Conheço uma estrada pra nós
Mas não olhe pelo retrovisor

Deixe que o mundo nos deixe a sós.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

O que esconder

Deixo transbordar em meu olhar
Coisas que eu não sei dizer
Mas evito encarar
O medo que pode conhecer
A ansiedade parece normal,
Mas é só a vontade de não errar
Saber que o tempo é informal
E leva de nós a calma de pensar.
As consequências em achar
As rimas nos meus sentimentos
Te levaram a imaginar
Que me rendo ao sofrimento.
Mas te peço não se deixe levar
Pelo tradicional julgamento
Eu procuro deixar o tempo marcar
A ordem natural dos acontecimentos.
Amanhã volte a sorrir
Pro meu dia começar
Bem como sentir,

No verão, a brisa do seu mar.